Após 6 anos da pandemia de COVID-19, o uso de tecnologia foi amplificado de forma exponencial e passou a ser ubíquo em nossa sociedade, mesmo entre os idosos acima de 80 anos. Maior capacidade de comunicação, possibilidade de mitigar o isolamento social, facilidades observadas entre indivíduos com deficiência física ou intelectual, como para solicitar compras em supermercado, pagamento de contas e resolução de problemas simples são grandes avanços e inclusão desse grupo etário em nosso meio através desse tipo de método.
Atualmente a discussão se direciona em como o tempo de tela e uso de rede social afeta criança e adolescentes, com legislações e determinações que limitam o uso nessa faixa etária, entretanto, precisamos saber como lidar com o extremo oposto etário. A rede social é um estranho fenômeno que penetrou na sociedade com um aspecto simbiótico: ao mesmo tempo que representa, torna visível e disseminado o que normalmente era implícito, molda padrões de comportamento e pensamento de forma inconsciente. Praticamente um retrato de Dorian Gray aos olhares mais críticos e atentos, mas agora com capacidade de atingir milhares de pessoas (ou milhões, no caso de alguém famoso ou um influencer) e que não fica encarcerado em um quarto escuro no sótão.
Publicado originalmente em 1890, O Retrato de Dorian Gray é o único romance escrito por Oscar Wilde, autor irlandês conhecido por seu estilo refinado, ironia ácida e crítica à hipocrisia da sociedade vitoriana. A obra é um marco do esteticismo, movimento que defendia a arte pela arte e o culto à beleza como valor supremo. Esse culto não parece o que assistimos hoje nas redes sociais? A narrativa acompanha Dorian Gray, após ter seu retrato pintado por Basil Hallward, torna-se obcecado pela juventude e perfeição de sua própria imagem. Influenciado pelo hedonista Lord Henry, Dorian expressa o desejo de permanecer eternamente jovem enquanto o retrato envelhece em seu lugar. O desejo se concretiza de forma misteriosa: enquanto Dorian mantém a aparência imaculada, o retrato passa a registrar as marcas de seus vícios, crueldades e degradação moral, sendo o livro uma breve reflexão sobre o narcisismo, a corrupção moral e o dualismo entre aparência e essência. Não seria tais sentimentos, ações e impressões hoje catapultadas com o advento das redes sociais? Quais os problemas do uso deste tipo de plataforma sem uma séria discussão das repercussões e impactos em todas as faixas etárias em nossa sociedade? Seria uma espécie de retrato de Dorian Gray moderno exposto em um mural digital?
A despeito da meta-análise recente de Benge, JF et al, Nat Hum Behav 2025 ter encontrado uma associação protetora do uso de tecnologia digital e desfechos cognitivos em idosos, certamente esse é pontapé inicial para entendermos melhor essa questão, tendo em vista que o uso da tecnologia é menos regulado, discutido e estudado do que nos indivíduos mais jovens e não sabemos como o excesso é definido e poderia ser prejudicial para esse grupo etário. Os termos “reserva tecnológica” e “demência digital” certamente são precoces e devemos observar melhor, com estudo longitudinais mais prolongados e em populações específicas, para que consigamos as melhores definições sobre este tópico. Cenas para os próximos capítulos.
Bibliografia:
https://www.economist.com/leaders/2025/10/23/never-mind-your-childrens-screen-time-worry-about-your-parents
Benge, J.F., Scullin, M.K. A meta-analysis of technology use and cognitive aging. Nat Hum Behav 9, 1405–1419 (2025). https://doi.org/10.1038/s41562-025-02159-9